(…)
Os gladíolos gostavam muito de ser gladíolos e achavam-se superiores a quase
todas as outras flores. Diziam eles que as rosas eram flores sentimentais e
fora de moda e que os cravos cheiravam a dentista. Tinham grande desprezo pelas
papoilas e pelos girassóis, que são plantas selvagens. E das flores da urze e
das flores de tojo do pinhal diziam que nem eram flores.
Os
gladíolos admiravam secretamente as camélias, mas não tinham muita consideração
por elas: achavam que elas eram esquisitas e irritantes. As camélias são muito
diferentes dos gladíolos: são vagas, sonhadoras, distantes e pouco mundanas.
Estão sempre semiescondidas entre as suas folhas duras e polidas. Mas os
gladíolos admiravam as camélias por elas não terem perfume, pois, entre as
flores, não ter perfume é uma grande originalidade.
Mas
as flores que os gladíolos amavam realmente, as flores por quem os gladíolos
tinham uma admiração sem limites, eram as tulipas. Com as tulipas os gladíolos
chegavam a ser subservientes e punham de parte a sua vaidade.
E
o único desgosto da vida dos gladíolos era não serem tulipas. Porque as tulipas
são caras, raras e muito bem vestidas. O seu feitio é simples, exacto e claro.
As suas cores são ricas e sumptuosas. As suas pétalas são as pétalas mais bem
cortadas e mais bem armadas que há no jardim.
Mas
havia uma flor que os gladíolos detestavam. Era a flor de muguet.
O
muguet é uma flor escondida. É uma flor pequenina e branca e tem um perfume
mais maravilhoso e mais belo do que o perfume dos nardos.
Durante
o Inverno ela dorme na terra debaixo das folhas secas e desfeitas das árvores.
Dorme como se tivesse morrido. Mas na Primavera as suas longas folhas verdes
furam a terra e crescem durante alguns dias até terem um palmo de altura. Então
muito devagar as folhas vão-se abrindo e mostram à luz maravilhada as
campânulas aéreas, brancas e bailarinas da flor do muguet. E o vento da tarde
toma em si o perfume do muguet, leva-o consigo, e espalha-o no jardim todo.
Então
tudo no jardim estremece e as grandes tílias e os velhos carvalhos e as flores
recém-nascidas e as relvas e as borboletas dizem:
-
É Primavera! É Primavera!
Só
os gladíolos não gostam e dizem:
-
Que flor tão exibicionista! Finge que se quer esconder, finge que é simples e
humilde, finge que não quer que a vejam, mas depois transforma-se em perfume e
espalha-se no jardim todo!
E
à noite, quando vão à estufa visitar as begónias e as orquídeas, os gladíolos
fecham a porta para não sentirem o perfume da flor do muguet."
(Excerto de O rapaz de bronze, de Sophia de Mello Breyner
Andresen)
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